V.
Alto, esguio, de fato preto, camisa quase sempre branca, muitas gravatas coloridas lhe são vistas com frequência (gosta especialmente de uma amarela, com o rato Mickey), cabelo penteado para trás com muito gel e sapatos de verniz. É quase sempre assim que o Ildefonso é visto, o vizinho do 6º esq., como a maioria se refere a ele. Tem 39 anos e um ar sempre divertido. Usa uns óculos pequenos, sem aros de lentes circulares, quase sempre na ponta do nariz, que diga-se, em abono da verdade, não é um nariz, é um narigão. Não se lhe conhece profissão, desce do 6º andar esquerdo todas as manhãs, por volta das dez, uma pequena pasta debaixo do braço, não maior que uma agenda de secretária, senta-se no Café Primavera, preenche muitos, mas muitos mesmo, boletins de totoloto. Compra, no quiosque em frente, dois jornais. Impreterivelmente “A Bola”, mas também um jornal de grande informação. Nem sempre o mesmo, já o vimos folhear as páginas de quase todos os matutinos. Pede uma bica, bebe-a sem açúcar quase de um só gole, pois deixa-a arrefecer cerca de cinco minutos. Acabada de ler “A Bola” , pede um pastel de nata e mais um café. Molha o pastel na chávena de café após tê-lo inundado de canela. Come o pastel ensopado e não toca mais na chávena que entretanto se pressupõe vazia. Logo à tarde virá passear o cão. O outro matutino é apenas folheado, lê as gordas e dobra-o ao meio. Levá-lo-á mais tarde para o seu 6º andar esquerdo, deixando o desportivo em cima da mesa para quem o quiser ler. Se aparece alguém conhecido, convida-o a sentar-se na sua mesa. Riem sempre muito, contam anedotas mas também falam de coisas sérias. Depois, sozinho, preenche mais boletins de totoloto.
