Quinta-feira, Novembro 04, 2004

V.

Alto, esguio, de fato preto, camisa quase sempre branca, muitas gravatas coloridas lhe são vistas com frequência (gosta especialmente de uma amarela, com o rato Mickey), cabelo penteado para trás com muito gel e sapatos de verniz. É quase sempre assim que o Ildefonso é visto, o vizinho do 6º esq., como a maioria se refere a ele. Tem 39 anos e um ar sempre divertido. Usa uns óculos pequenos, sem aros de lentes circulares, quase sempre na ponta do nariz, que diga-se, em abono da verdade, não é um nariz, é um narigão. Não se lhe conhece profissão, desce do 6º andar esquerdo todas as manhãs, por volta das dez, uma pequena pasta debaixo do braço, não maior que uma agenda de secretária, senta-se no Café Primavera, preenche muitos, mas muitos mesmo, boletins de totoloto. Compra, no quiosque em frente, dois jornais. Impreterivelmente “A Bola”, mas também um jornal de grande informação. Nem sempre o mesmo, já o vimos folhear as páginas de quase todos os matutinos. Pede uma bica, bebe-a sem açúcar quase de um só gole, pois deixa-a arrefecer cerca de cinco minutos. Acabada de ler “A Bola” , pede um pastel de nata e mais um café. Molha o pastel na chávena de café após tê-lo inundado de canela. Come o pastel ensopado e não toca mais na chávena que entretanto se pressupõe vazia. Logo à tarde virá passear o cão. O outro matutino é apenas folheado, lê as gordas e dobra-o ao meio. Levá-lo-á mais tarde para o seu 6º andar esquerdo, deixando o desportivo em cima da mesa para quem o quiser ler. Se aparece alguém conhecido, convida-o a sentar-se na sua mesa. Riem sempre muito, contam anedotas mas também falam de coisas sérias. Depois, sozinho, preenche mais boletins de totoloto.

Terça-feira, Novembro 02, 2004

IV.

Já ia cinco minutos atrasado para a quarta aula do semestre. Leccionava projecto de arquitectura numa faculdade em Amesterdão. Diz-se que esta Veneza holandesa é uma cidade de belas mulheres.
Ao entrar na sala, da qual emanava um cheiro de trabalho, um misto de cartão, cola e suor, reencontrou o estudante. Ao lado do estudante, a namorada, mantinha o seu olhar profundo que foi por instantes desviado para alcançar o professor. Este, por sua vez, parou fulminado por tamanha subtileza. Aquele rosto de traços finos, olhos verdes cujos cabelos longos e negros salpicavam de sensualidade deixou-o paralizado durante alguns segundos. E nem o olhar trocista de alguns alunos e nem a diferença, de cerca de 20 anos de idade, o fizeram vacilar um milímetro que fosse. Desde o primeiro dia que ela despertara neste arquitecto um desejo enorme. Algo que se situava na linha ténue entre o desejo de a possuir e o medo que esta ideia provocava. Mas naquele dia algo de muito estranho se passava... nunca se sentira assim, avassaldo por esta feminina presença. Num gesto despreocupado, em contrariedade com a alegria que normalmente o acompanhava, entregou o enunciado do exercício. Por se tratar de uma primeira fase a sua explicação era fundamental, porém balbuciou apressada e atabalhoadamente algumas palavras.

Sábado, Outubro 30, 2004

III.

Como todos os dias, olhou para o relógio e meteu a chave à porta. Como todos os dias eram seis horas da manhã, mais coisa, menos coisa. Como todos os dias vinha cansada, ardida, suada, suja. Amanhã, hoje, é Domingo. Terá tempo para descansar, aos Domingos não trabalha, tomar um duche quente, pentear-se, hoje não porá maquilhagem. Irá à ama, à boa da velha Genoveva, ver a filha. Está tão bonita, a filha. Cinco anos e olhos azuis, cabelo loiro. Não se recorda de ninguém de cabelo loiro com quem se tenha deitado. Apenas se recorda que por aquelas alturas, terá recebido uma boa maquia de três ou quatro clientes para não exigir preservativo. O mais próximo daqueles olhos era de um ”cabrito” com ar de provinciano, aspecto físico de pedreiro, rude, mas pouco mais se lembra, que lhe pagou quinze contos de reis. Raios a partam que não há meio de deixar aquela vida. Nem da filha, conhece o pai. Mas o dinheiro que ela dá à Genoveva, mais a renda da casa, mais a água e a luz e o telefone e o telemóvel e as consultas e os exames periódicos e a mãe doente lá na terra... Onde vai ela arranjar o dinheiro que precisa? Graças a Deus nunca teve chulo. Meteu a chave à porta, deu dois passos e caiu exausta sobre a cama.

Sexta-feira, Outubro 29, 2004

II.

Adora-a o estudante. Contempla-a na sua plenitude. Venera a sua beleza.
Ela por sua vez, seminua, fixa o vidro num olhar penetrante e vazio, carregado de melancolia, desgastado de monotonia.
Há muito que pela sua jovem mente, passava um turbilhão de pensamentos que confrontavam esta relação com sonhos pessoais.
Até que ponto estamos dispostos a correr riscos?

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

I.

Hoje expõe. Nunca imaginou os quase 180º graus que a vida lhe havia de proporcionar. É verdade que nasceu no meio de tintas. O pai colectava em lixeiras, principalmente de fábricas dos arredores, restos de latas, que misturava escrupulosamente. Nunca, no bairro clandestindo, apareceram casas com cores tão originais como as pintadas pelo pai do nosso protagonista. Se não fosse constituído, na maioria, por barracas, dir-se-ía que era uma obra de Taveira. Ele, pequenote, observava. Quis o destino que seguisse as pegadas do pai. Nunca teve nome. Havia o pintor e o filho do pintor. Quando o pai morreu, devido a uma queda de um andaime improvisado onde pintava, herdou-lhe o nome. Agora, era ele o pintor. E as cores, eram o seu fascínio. Nunca deitava fora uma lata com um resto de tintas. Juntava-as em pequenos boiões, pois haveria de lhes dar uso. Na lixeira encontrou o que seria a sua primeira tela.