III.
Como todos os dias, olhou para o relógio e meteu a chave à porta. Como todos os dias eram seis horas da manhã, mais coisa, menos coisa. Como todos os dias vinha cansada, ardida, suada, suja. Amanhã, hoje, é Domingo. Terá tempo para descansar, aos Domingos não trabalha, tomar um duche quente, pentear-se, hoje não porá maquilhagem. Irá à ama, à boa da velha Genoveva, ver a filha. Está tão bonita, a filha. Cinco anos e olhos azuis, cabelo loiro. Não se recorda de ninguém de cabelo loiro com quem se tenha deitado. Apenas se recorda que por aquelas alturas, terá recebido uma boa maquia de três ou quatro clientes para não exigir preservativo. O mais próximo daqueles olhos era de um ”cabrito” com ar de provinciano, aspecto físico de pedreiro, rude, mas pouco mais se lembra, que lhe pagou quinze contos de reis. Raios a partam que não há meio de deixar aquela vida. Nem da filha, conhece o pai. Mas o dinheiro que ela dá à Genoveva, mais a renda da casa, mais a água e a luz e o telefone e o telemóvel e as consultas e os exames periódicos e a mãe doente lá na terra... Onde vai ela arranjar o dinheiro que precisa? Graças a Deus nunca teve chulo. Meteu a chave à porta, deu dois passos e caiu exausta sobre a cama.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home